domingo, 1 de novembro de 2009

#Gripe A(mor)

Manhãs de inverno incipiente poderão tornar-se retrato fiel da vida de uma mulher. Iniciam-se no armário de casa, perante a indecisão indumentária com que enfrentar o longo dia, e sublinho longo, porque uma mulher que pretenda sobreviver a todo tipo de intempéries existenciais, já não se preocupa com o factor temperatura; sentir-se de pés amputados pelo frio, torna-se irrelevante se as botas nos fizerem parecer maravilhosas pernas torneadas e, consequentemente, nos proporcionarem confiança necessária a esmagar corações masculinos e  subir escadas profissionais.
A tarefa de escolher roupa adequada e, repito, não se trata de escolha confortável (isso seria erro equivalente a um tornado), na ambição de estar preparada para conquistar um mundo agreste - no qual a sobrevivência se garante pela aparência - perspectiva-se rigorosa em dias de semi-inverno, podendo mesmo esgotar-nos uma boa parte da energia necessária à manutenção da homeostasia. Meios termos são sempre muito ingratos. Semi-inverno climatérico equivale a meia estação sentimental, quando os companheiros aquecem temporariamente as  noites e nos mantêm o coração como um deserto sibérico.
Numa destas manhãs, depois de ultrapassadas todas as batalhas domésticas, e enquanto trauteava daquelas músicas que nos fazem sonhar ao ritmo de clima tropical, o meu carro cedeu aos caprichos sazonais e recusou-se a recomeçar marcha aquando o sinal verde. Debaixo de uma chuvazinha desagradável e de buzinas pouco ou nada agradáveis, empenhei o ímpeto restante das lutas matinais,  numa árida tentativa de movimentação. Por segundos, confesso, ganhou dimensão considerável na minha cabecita ensopada, a possibilidade de um indivíduo de gravata, encharcado em charme e after-shave, livre e desimpedido, me bater no vidro para que, juntos, desimpedíssemos a via pública, e terminássemos, livremente, a beber café em elevada temperatura. Mas, esta ideia de adolescente que acredita no que só acontece à Julia Roberts, manteve-se inquebrável curto espaço de tempo, e rapidamnte se fez-se mil pedaços, logo que chegou o condutor de reboques, cuja mão praticamente trespassou a minha janela fechada: "-A senhora sabe o que aconteceu? Hmm..não... devia? -Ora devia!? Pois claro! O carro não é seu? Não o conduz todos os dias? Sim.. sim.. -Então devia estar atenta aos sinais que lhe dá!"
Nunca ignorem o mensageiro, porque o senhor do reboque era um sábio. Fez-me perceber, em segundos, como a minha relação com o carro espelhava a minha ex relação amorosa. Como posso perspectivar prosperidade com a outra parte, se não lhe compreendo os "sinais"?
Determinada a ficarem por ali as lições de vida do dia, aquando a chamada do mecânico com pergunta idêntica ao condutor de reboques-filósofo, atirei-lhe: "Hmm... penso que o motor gripou". No fundo, estava a manter a linha de raciocínio iniciada momentos antes, enquanto via o meu carro afastar-se na chuva, já que acontece do mesmo modo nos relacionamentos sentimentais: não lhes percebemos a sintomatologia, e quando queremos realizar terapêutica adequada, a enfermidade é tão grave que impede o percurso. Ficamos, assim, com dois historiais clínicos possíveis: resignarmo-nos ao diagnóstico tardio e deixarmos que se expire, ou aplicar-lhe sobredosagem de amor e conviver com a possibilidade de um quadro de reincidência.
Estaremos sequer perto da descoberta de uma vacina, que nos deixe imune às pandemias do coração?

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