quarta-feira, 11 de novembro de 2009

#Take 30: Acção!

Agrada-me acreditar que me evito a expectativas. Aliás, só o faço porque sou muito boa a criá-las. Dêem-me uma abóbora e um carrinho de linhas e aí vou eu, a trote de magnânime caleche! Frequentemente, deparo-me com uma cabaça, às vezes puxada por algum asno, mas, ainda assim, não desanimo, e lá vou eu de novo, mais veloz que um puro sangue. Não se trata de uma necessidade, mas antes uma condição. Sou assim, gosto de dar contributo ao enredo.
Com base nisto, recuso-me protagonizar arranjinhos encenados, recuso-me sequer a ouvi-los. E, amiúde, justifico-o com o meu argumento adaptado, embora haja amigas com verdadeiro talento de cineasta sentimental e que, só descansam, quando esgotam lotação de insistência.
Há uns dias, em conversa, diz-me uma: "- Há um colega de trabalho do meu marido impecável para ti. E não é divorciado! - piscadela de olho - Hã, e esta? Solteiro na tua faixa etária, já viste? Não me digas que vais desperdiçar uma oportunidade destas?!" E eu pergunto: desperdiçar? Mas desperdiçar o quê? Achava que, para isso acontecer, devia estar sem opção e, no meu circuito alternativo, sozinha não significa cruel imposição do destino. 
Mas, vejamos, estas senhoras são profissionais e, como tal, têm o guião bem estudado: "- Ele achou-te bonita. Queres que peça ao meu marido para lhe falar bem de ti?" - sorriso cúmplice. Desculpa, o teu marido tem o que falar mal de mim? Ou és só tu que me julgas incapaz de suscitar interesse ao Adónis-solteiro-assalariado? Não que duvide da credibilidade que me me dás, queria só saber que nível de preocupação inspiro para poder calibrar a minha autoestima.

Ora bem, se tivéssemos ficado por aqui era mau, embora não terrível, mas há segunda parte: "-Sabes que... (erguer de sobrancelha)... chega uma altura que devemos fechar os olhos a alguns pormenores... porque....(2º erguer de sobrancelha), porque... o tempo vai passando e..." 
E... corro risco de ficar solteira? Isso é uma doença? Tem cura?  Falam como se fossemos doentes da peste! Cuidado, podes contrair solteirice! Minhas senhoras, tenham calma, a ser padecimento, não é contagioso!
Mas diálogos deste género primam por se tornarem realmente insanos, porque não são só pontuais desiquilíbrios de discurso e, para deleite de quem assiste, a sessão continua... "-Repara, eu ainda só falei disto a ti!" Devo, portanto, ficar muito agradecida?! Talvez deva também implorar: por favor, não fales do Adónis-solteiro-assalariado a mais ninguém! Vou tentar conquistá-lo antes que outra descubra! "-Podes confiar, garanto-te que é solteiro mas normal! Só ainda não encontrou quem lhe agrade, percebes?" - olhos arregalados - É solteiro mas normal?! Existe algum estudo que desconheça, acerca de se perderem faculdades, em consequência da terrível enfermidade "solteira/o aos 30"? E, de enfiada, atira-me com: 'ainda não encontrou quem lhe agrade'. Mas até que ponto é razoável esforçar-me para ser a 'sortuda'? Aliás, porque é que a solteirice dele é mais respeitável e menos preocupante do que a minha?
Por momentos, quase me perdi no enredo, visto que, enquanto fluía a conversa -  em ritmo de  banda sonora deprimente - ensaiava já a minha última fala: haverá mulher, tão desprovida de autoestima, ao ponto de aceitar esta 'oportunidade'?!
Inesperadamente , fui cortada por uma vozinha tímida, audível pela ênfase do momento: "-Se pões tantos defeitos é porque não estás interessada! Posso tentar eu?"
Para este filme só há um título: "Humilhação suprema da mulher solteira" (e não lhe prevejo happy end...)

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