terça-feira, 2 de março de 2010

#O Mundo Como Lugar Estranho

O espaço dos relacionamentos homem-mulher é uma arena de festa brava: olham-se, avaliam-se, respeitam-se (esta parte já teve mais destaque), provocam-se,  para finalmente se engalfinharem. A não correr bem, cravam-se bandarilhas sem dó nem piedade. E é nestes momentos que imagino os relacionamentos gay como lutas de galos clandestinas, para depois aparecer alguma GAY-ERCUS que lhes defenda direitos (em dias de inverno presto-me a estas teorizações, cujo limitador é o pluvímetro... ou seja, nada me pode parar...)
Em final de lide, o/a desgraçado/a acaba por recompor-se - "ninguém morre de amor" - não se pode, é ilegal; senti-lo está em desuso, não há lugar para estas tradições, atentam contra os direitos emocionais e, mesmo que entre uma pega e outra se conte uma investida certeira, são cada vez menos os sortudos a sair da praça em braços, sob merecida ovação. No espectáculo do amor já não se atiram cravos nem rosas vermelhas, isto agora está muito mais para pegas em grupo, sem grandes rodeios, assim, de caras.
Dois passinhos em frente, quatro para trás, de risco nada arriscado com tudo sempre bem calculado - e percebo agora o porquê de apenas homens forcados - não é virilidade nem masculidade, sequer coragem, é a arte de retroceder, está-lhes no Y.
Ainda assim, chega uma altura que estes senhores perdem a noção... e investem sem qualquer critério. Querem lenços a acenar das bancadas, querem plateia de pé e   coração ao rubro, para depois, qual toiro de raça, focalizarem impiedosos o alvo e dispararem desenfreados, directos
 à gloriosa estocada final. 

Sapataria. Entrei e dei bom dia. Estava vazia numa quinta feira pelas 11 da manhã. Lá dentro uma senhora de meia idade experimentava muitos pares enquanto o funcionário segurava caixas. No corredor mais próximo um rapaz de aproximadamente 30 e mãos atrás das costas deu-me um caloroso bom dia. Retribuí. Deambulei pelas filas ordenadas enquanto o tal jovem me seguia e, sempre que eu me detinha na frente de alguma prateleira, ele retirava-lhe um par de botas e dizia: "Gostas destas?"
Confesso, não gosto é que me tratem por tu, porque também não o faço, e não gosto que me persigam nas lojas, mas pensei que talvez trabalhasse ali há pouco tempo e estivesse apenas a ser demasiado solícito. Então, na maior boa vontade, forçava um meio sorriso e dizia: "Não é bem isso que quero, obrigada." A coisa continuou assim uns bons 10 minutos, até que ele sugeriu que subisse ao primeiro andar, onde havia maior variedade. Agradeci e subi. Como é óbvio, acompanhou-me. Chegada ao andar de cima, abeirou-se uma funcionária que me perguntou, delicadamente e sem me tratar por TU, se precisava de ajuda. Expliquei como pude o que não procurava, já que nem eu sabia muito bem o que queria, e a menina fez o que pôde para conseguir o que eu não sabia querer. Sou uma cliente complicada, admito. Muito bem, no primeiro andar não havia nada que viesse ao encontro do que eu não sabia gostar (sou uma pessoa de gostos peculiares, é verdade...), e por isso desci novamente, com a sombra masculina solícita no meu encalço.
Desesperançada, já quase a abandonar a loja, espreitei de relance para a montra e o meu olhar deteve-se numas botas que não me desagradaram de todo. Havia nelas algum potencial. Observei-as os minutos necessários a nutrir-lhes afeição, para depois, gradualmente,  este sentimento se transformar em carinho, ternura, paixão e, em breve, lhes sucumbir de amor. Pronto Senhor, vai ser útil, anda a tentar atender-me há séculos, é chegada a sua hora!
"-Por favor, está a ver aquelas botas ali, ao lado das pretas, na segunda fila? Sim essas. Pois pois, também acho bonitas. Sim sim, é verdade, acabei por me decidir... Tem o tamanho X? Pois, realmente também me parecem muito giras, mas tem o tamanho que pedi? Sim, pois, é verdade... demoro algum tempo a decidir-me... mas, não se importa, por favor, de verificar se tem? Pois, isso também é verdade, quando não se vem com uma ideia, leva sempre mais tempo... pois é... Mas, o tamanho, será que tem? Pois, mas eu gosto naquela côr, importa-se de ir buscar? É que estou com um bocadinho de pressa. Como? Desculpe, não percebi... O quê? O Senhor não trabalha aqui??? Não estou a perceber... o Senhor não trabalha aqui?? Não entendo... Como? Aquela Senhora ali a comprar sapatos desde q eu entrei é sua mãe?! Então porque raio me persegue e dá sugestões desde que pus os pés dentro da loja????? Como?? O quê? Se quero trocar contactos??????? .............
Quero, sabe porquê? Porque gostava de lhe tirar uma foto para pôr no meu blogue e mostar como o Senhor tem uma aparência normal e, no fundo, só pode ser maluco!"

P.S.-o episódio "sapataria" é verídico. Só é fruto da minha imaginação a resposta dada aquando o pedido de contacto. Claro que era isso que gostava de ter dito, mas na altura achei que um "não, não estou interessada" em tom seco, foi não só mais eficaz, como também menos humilhante, uma vez que a progenitora deste ser humano sui generis estava a escassos metros. Não compreendo, palavra de honra que não comprendo este tipo de abordagem... é suposto isto ser romântico? É suposto ter piada? Foi? Teve? Sou eu que sou um poço de insensibilidade? Se sou, peço desculpa...

6 comentários:

techexp disse...

Isso é mesmo verdade? É que se for por favor diga-me onde é, para avisar as minhas conhecidas e amigas a nao frequentarem esses locais estranhos onde possiveis perdadores se escondem!! :o

Algoritmo Perfeito disse...

Apesar de se tratar de um relato de factos verídicos, penso que predadores destes género estão mais para atracção de circo, e não representam qualquer risco para a populção feminina no geral. Reconheço-lhe engenho e ousadia. Só por isso, palminhas!!!! :)

Bigger than I am disse...

Ah Ah Ah! Pagava para assirtir a essa cena. Era caso para terminar a conversa com: "Desculpe, onde estacionou a nave?"!

Anónimo disse...

Engenho e arte!

Algoritmo Perfeito disse...

Bigger, é caso para dizer: pegue na sua nave e volte para Marte, rápido!!! Nada disso, era um rapaz corajoso, com talento para as vendas. Juntou o útil ao (des)agradável :)beijoooo

Algoritmo Perfeito disse...

Caro "Anónimo", reconheço ao Senhor em questão engenho, agora arte... não lhe vejo grande talento de D.Juan. No entanto, haverá quem aprecie, assim espero :)