segunda-feira, 26 de abril de 2010

#Alívio Rápido Da Dor

Gosto de ser uma cliente fiel, mas valha-me o Senhor de lá de cima, para que isso aconteça diz-me o bom senso que os estabelecimentos têm que fidelizar o cliente. Digamos que uma caneta hoje, um calendário amanhã, um pin depois, esse tipo de coisas ajudam, mas o que conta realmente é o atendimento, o trato, a malograda conduta.
Há uma farmácia que costumo frequentar - não que seja assídua das farmácias ou hipocondríaca, palavra de honra que não sou - mas estes lugares hoje em dia tornaram-se um local de peregrinação frequente pela multiplicidade de oferta. Então, amiúde lá estou eu, na que me fica mais perto, com umas prateleiras muito bem organizadas, uma gama de cremes e champôs que dão vontade de padecer de todo o tipo de dermatites seborreicas, e um expositor de escovas de dentes para molares que eu jamais imaginava possuir. No entanto, ao balcão está um senhor que, visto eu e o destino termos uma relação amor/ódio, acerta sempre a minha vez - e temo este digníssimo técnico de farmácia ter passado ao lado de uma brilhante carreira de tenor, uma vez que tudo aquilo que lhe peço em voz baixa ele tende a repetir vários décibeis acima do que pode ser considerado razoável... e sempre num registo grave, com uma expressão muito compenetrada - deste modo, não há viv'alma naquele estabelecimento, e num raio de alguns quilómetros talvez, que não saiba que eu apanhei sol a mais numa fila de trânsito e estou com o braço esquerdo pior que um bife mal passado, ou que a écharpe que trago glamorosamente enrolada em volta do pescoço, esconde na verdade uma terrível alergia ao gel de banho.

Então ponho-me a pensar... quão mais aliviada posso sair daquela farmácia?

Trago comigo a parafernália de cremes e invade-me uma estranha sensação de leveza. Não pelo alívio imediato que as bulas prometem, mas antes porque durante alguns minutos, mesmo que contra minha vontade, não há nada a esconder. Não preciso representar-me perfeita, imaculadamente (des)alinhada como se exige da mulher de hoje, porque o Senhor que está no balcão fez o favor de me retirar esse peso dos ombros em dois segundos, e expôs-me assim como sou – com um escaldão monumental no braço que me roubou preciosos minutos na escolha da roupa que melhor o disfarçasse, e uma écharpe sufocante também posta de lado, já que toda a fila atrás de mim teve conhecimento do pouco charme de um conjunto de pequeníssimas borbulhas em torno do pescoço, fruto de algum componente menos hipoalergénico do novo gel de banho coco-canela. E mesmo a cólera momentanea, aquela que senti aquando a “ópera das mazelas”, até essa foi libertadora, e agora sinto-me muito mais tranquila. De repente, todos os padecimentos superficiais se tornaram secundários e a busca passou a ser por um antídoto para algo, até aquele momento, assintomático.
Então, agradeço e faço um largo sorriso, enquanto o "funcinário-barítono" proclama finalmente: "até à próxima".
Em breve, com toda a certeza.

O regresso a casa garante-me o final de dia perfeito. 

Há quem vá para o ginásio correr dezenas de quilómetros. Quem faça tricôt ou rendas de bilros. E os que pintam pratos e frequentam cursos de cerâmica. Tudo com o único e mesmo objectivo – alcançar o momento zen do dia.
No meu caso, opto pela terapêutica convencional e dirijo-me rapidamente à farmácia.

2 comentários:

Anónimo disse...

Triste sejam iguais as farmácias mundo afora, mas que não haja em todas o barítono-redentor.

Algoritmo Perfeito disse...

Quem vive no calor do abraço do verdadeiro Redentor, jamais pode lamentar-se :)
beijinho
AP